No meio do caminho para casa, já respirando com dificuldade, o garoto virou-se para o pai e reclamou:
- Essa ladeira podia ser reta.
31.5.09
30.5.09
Olhos de águia
- Do alto do morro, observam as possíveis presas. Quando escolhem a vítima, a descida é fulminante, ágil e precisa. Em questão de segundos, cravam as garras na presa sem qualquer sinal de piedade.
Ao pé do morro, para evitar a hesitação, o comandante descreveu desta forma os pequenos pássaros que engaiolariam: aqueles que, por acidente, não matariam
Ao pé do morro, para evitar a hesitação, o comandante descreveu desta forma os pequenos pássaros que engaiolariam: aqueles que, por acidente, não matariam
29.5.09
Mímicos
A internet e as mídias sociais permitiram que pessoas com os mesmos ideais pudessem se encontrar, trocar ideias e agendar protestos, ações organizadas
Infelizmente, por falta de eletricidade ou de vontade, os protestos resumem-se a alguns poucos indignados, extremamente organizados: todos de camiseta preta e nariz de palhaço, todos mudos
Infelizmente, por falta de eletricidade ou de vontade, os protestos resumem-se a alguns poucos indignados, extremamente organizados: todos de camiseta preta e nariz de palhaço, todos mudos
28.5.09
Sem rumo
Sem trabalho e sem sorte
procurando um norte
acabou indo parar no sudeste
Sem saber o caminho certo
acostumado ao campo aberto
perdeu-se no labirinto de prédios
procurando um norte
acabou indo parar no sudeste
Sem saber o caminho certo
acostumado ao campo aberto
perdeu-se no labirinto de prédios
27.5.09
Motim
Rebelou-se contra os próprios sentimentos
Quando eu disse que ela ainda me amava, respondeu - assim sem pausa:
- Amo-tenada!
Quando eu disse que ela ainda me amava, respondeu - assim sem pausa:
- Amo-tenada!
26.5.09
Pôr do só
Lá pelas cinco da tarde, as ruas esvaziam de gente, de carros e até mesmo de pássaros
Quando a noite é uma ameaça, apenas o sol tem coragem de dar as caras
Quando a noite é uma ameaça, apenas o sol tem coragem de dar as caras
25.5.09
Entrincheirados
Frente a frente, de ambos os lados, bravos homens e mulheres permanecem enfileirados. Atentos a cada movimento, aguardam apenas um sinal para que possam avançar.
Assim que o sinal é dado, partem apressados, desviando dos que vem em direção oposta, ansiosos por chegar ao outro lado. Afinal, neste campo de batalha, os mais temidos circulam sobre rodas.
Assim que o sinal é dado, partem apressados, desviando dos que vem em direção oposta, ansiosos por chegar ao outro lado. Afinal, neste campo de batalha, os mais temidos circulam sobre rodas.
24.5.09
Sinfonia do medo
Quando aquele jovem casal mudou-se para o 209, as batidas e gritos viraram a trilha sonora da rotina
A entrada dos metais, graves, adicionou tensão
Por fim, ouviu-se apenas um sopro agudo, último suspiro
A platéia permaneceu estática, cada um em sua poltrona
2009 - 6º lugar no Concurso Bar do Escritor - Comunidade Bar do Escritor;
A entrada dos metais, graves, adicionou tensão
Por fim, ouviu-se apenas um sopro agudo, último suspiro
A platéia permaneceu estática, cada um em sua poltrona
2009 - 6º lugar no Concurso Bar do Escritor - Comunidade Bar do Escritor;
23.5.09
Jogo de azar
Apostei trinta reais no meu time do coração. Ainda restavam quatro dias para o final do mês e, se perdessem, provavelmente eu ficaria sem ter o que comer por pelo menos uns três dias, até chegar o salário - isso se o chefe resolvesse adiantar o pagamento, porque o quinto dia seria inútil, bem no feriado.
Apreensivo, roí unha durante todo o primeito tempo, fraquíssimo, um merecido zero a zero. Mas, no segundo tempo, soltei o grito comemorando três gols e maldizendo o juiz e o goleiro por outros dois. Até o final, sofri, mas o time venceu.
Voltei do estádio andando e de estômago vazio, para ver se conseguia segurar mais um dia. Ainda assim, valeu o ingresso, aposta de risco.
Apreensivo, roí unha durante todo o primeito tempo, fraquíssimo, um merecido zero a zero. Mas, no segundo tempo, soltei o grito comemorando três gols e maldizendo o juiz e o goleiro por outros dois. Até o final, sofri, mas o time venceu.
Voltei do estádio andando e de estômago vazio, para ver se conseguia segurar mais um dia. Ainda assim, valeu o ingresso, aposta de risco.
22.5.09
21.5.09
Crítica
Enfiaram-lhe a faca no umbigo e giraram
Não podia ter doído mais, era tão visceral e classificaram de imaturo
Ferido no ego, arrastou-se de volta a sua vida vazia
Não podia ter doído mais, era tão visceral e classificaram de imaturo
Ferido no ego, arrastou-se de volta a sua vida vazia
20.5.09
Viagem solitária
Sentindo-se só, o sujeito mais injustiçado do mundo, sentou-se ao silêncio da praça
Ajeitou-se e tirou do bolso o velho caderninho no qual regurgitava o que depois chamaria de poesia
Ao curvar-se para escrever, caiu no próprio umbigo
Ajeitou-se e tirou do bolso o velho caderninho no qual regurgitava o que depois chamaria de poesia
Ao curvar-se para escrever, caiu no próprio umbigo
O ainda idiota
Durante a 5ª Cúpula das Américas, Hugo Chávez, entregou em mãos, a Barack Obama, o livro “Veias Abertas da América Latina”, do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano. O economista Maílson da Nóbrega tratou de tentar rebater a “ofensa” cometida pelo venezuelano em um artigo publicado na revista Veja. Em sua tentativa de desmoralizar o ato, além de nos deixar ávidos por algum sinal de argumentação, o economista exibe em detalhes seus preconceitos ideológicos, políticos e sua grande capacidade de dissertar acerca de um livro que não leu.
O artigo pode ser lido aqui.
No artigo destacam-se os seguintes trechos: “Galeano tem uma resposta fácil (e equivocada) para o atraso relativo da América Latina: a exploração de suas riquezas pelos colonizadores espanhóis e portugueses, e depois pelos EUA”, “Enquanto Galeano escrevia suas bobagens, surgiam estudos sérios para explicar por que a América Latina perdeu para os EUA e o Canadá o lugar de região mais rica das Américas”, “Culpar a 'espoliação imperialista' pela pobreza latino-americana é mistificação derivada de preguiça mental e cegueira ideológica”.
Pelo que se lê nas frases acima, deduz-se que o autor das mesmas não leu a obra de Eduardo Galeano, uma vez que “Veias Abertas da América Latina” trata-se de uma análise histórica, baseada em fatos e pessoas que construíram cada país do nosso continente e que traça o contexto de uma América Latina do anos 70, quando estouravam por todos os lados ditaduras militares apoiadas - abertamente ou por debaixo dos panos - pelos EUA. Além disso, o livro trata de esmiuçar não só a “espoliação imperialista” em termos econômicos, mas também políticos, culturais e, muitas vezes, militares. Sendo assim, quando esta obra é reduzida a um dedo apontado para os EUA como culpados pela pobreza da América Latina, só se pode deduzir que tal opinião foi baseada no achismo.
Em relação aos escassos argumentos do artigo, o economista enumera alguns motivos para a pobreza da América Latina - em detrimento do enriquecimento dos EUA e Canadá - retirados dos estudos do economista britânico Ronald Coase e dos economistas estadunidenses Douglas North, Stanley Engerman e Kenneth Sokoloff Entre estes argumentos, cita que, em 1880, a renda per capita do Brasil era semelhante à dos EUA, mas que as instituições latino-americanas, com pouco respeito ao direito de propriedade e aos contratos, era desfavorável ao desenvolvimento do capitalismo. Também diz que a fonte das nossas desigualdades sociais na América Latina é derivada do trabalho escravo, no caso do Brasil, na monocultura da cana-de-açúcar, e cita que, nos EUA, com pequenos agricultores e artesãos, formou-se uma ampla classe média, o que facilitou a distribuição da renda. Além destes fatores, o autor aponta o protestantismo como incentivador da educação, que por sua vez estabeleceu os alicerces do desenvolvimento, e cita as políticas de privilégios, de substituição de importações, descaso com educação e com a inflação que aumentaram as desigualdades na América Latina.
Considerando apenas os fatores que formaram a base para o crescimento dos EUA, não há problema algum, mas, ao tentar desmistificar a pobreza da América Latina, eximindo de culpa a exploração desde o período colonial, o economista comete algumas pequenas gafes, talvez por esquecimento. O autor esquece, por exemplo, que a venda de escravos ao Brasil interessava a Portugal, Espanha e, principalmente, à Inglaterra. Esquece também que a monocultura de cana-de-açúcar veio a esgotar o solo do Nordeste e que a especulação, anos mais tarde, reduzindo o preço do açúcar ao nada, veio a dar o último golpe em um nordeste brasileiro que já tinha esgotado boa parte de suas terras produtivas. Vale lembrar também que, investindo na educação, o Paraguai conseguiu estabelecer as bases para o desenvolvimento econômico, mas foi massacrado, não por Brasil e Argentina, mas pela Inglaterra, que precisava de mercado para suas indústrias. Nessa arte do esquecimento, o autor esquece também que a fórmula mágica do desenvolvimento dos países do primeiro mundo não é, nem nunca foi, o liberalismo econômico, mas sim o protecionismo. Esquece também que os números não dizem tanto quanto as pessoas e os fatos e esquece, inclusive, que quem estava comandando o Ministério da Fazenda quando o Brasil bateu recordes de inflação era ele próprio, com planos mirabolantes, interferindo nas poupanças e nos intocáveis contratos.
Para finalizar, o artigo supracitado intitula-se “Ainda o idiota”. O título e algumas citações foram retirados do livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, escrito por Plinio Apuleyo Mendoza, embaixador colombiano em Lisboa, Carlos Alberto Montaner, dono de editora cubano que reside em Madri, e Álvaro Vargas Llosa (não confundam com o poeta Vargas Llosa), peruano que reside em Washington. Ironicamente , o termo idiota, em sua origem grega “idiotes”, era utilizado para designar os homens que preocupam-se com seus interesse privados ao invés de preocuparem-se com os interesses da nação. Ao que me parece, Eduardo Galeano, que mora em Montevidéu, estava certo quando escreveu o livro “De Pernas para o Ar” dizendo que o mundo estava ao contrário: afinal, os que o acusam de idiota são os que defendem o liberalismo econômico e o consequente desmonte das suas próprias nações em prol dos interesses privados. Enquanto os economistas continuam citando os “ventos da economia”, pessoas como Eduardo Galeano sabem que estes ventos só decidem para que lado os mais pobres vão cair e, polêmicas à parte, Chávez fez muito bem em dar a Obama um livro que Maílson deveria ter lido, mas que ainda não leu.
19.5.09
Sociável
Sempre ouviu falar do papel social da literatura
Ao reparar no coleguismo dos editais e no puxa-saquismo dos saraus, entre apertos de mãos e tapinhas nas costas, percebeu que havia entendido errado
Ao reparar no coleguismo dos editais e no puxa-saquismo dos saraus, entre apertos de mãos e tapinhas nas costas, percebeu que havia entendido errado
18.5.09
Subvertido
Discursava sobre a injustiça
sobre a pobreza
e sobre a fome
Nunca soube como era ficar abaixo, suportando a pressão
sobre a pobreza
e sobre a fome
Nunca soube como era ficar abaixo, suportando a pressão
17.5.09
Programação
Indignou-se com as notícias
Acalmou-se com a novela
Alegrou-se com o futebol
E, por fim, vendo um filme, acabou desligado
Acalmou-se com a novela
Alegrou-se com o futebol
E, por fim, vendo um filme, acabou desligado
16.5.09
Cobiça
O pecado original sempre foi visto como um mau exemplo
Surgiu então a pirataria, salvação dos que nunca puderam
Surgiu então a pirataria, salvação dos que nunca puderam
15.5.09
Pirâmide social
Alguns sobressaem vendendo valores
Outros, sobrefaturam vendendo ideais
Enquanto o povo sobrevive, vendendo latinhas e jornais
Outros, sobrefaturam vendendo ideais
Enquanto o povo sobrevive, vendendo latinhas e jornais
14.5.09
13.5.09
12.5.09
Fora dos padrões
Quando a mídia anuncia os tempos de vacas magras
As mais saudáveis, que ao menos não expõem as costelas, acabam abatidas, deprimidas
As mais saudáveis, que ao menos não expõem as costelas, acabam abatidas, deprimidas
11.5.09
10.5.09
Encomendas
Durante a noite, fatigados, embrulham-se em papelão
Na esperança de serem enviados a algum lugar melhor
Na esperança de serem enviados a algum lugar melhor
9.5.09
8.5.09
Aninha
Começamos a juntar o pouco que tínhamos
Para evitar o frio, ela cobriu-me de expectativas, aninhou-me
Para evitar o frio, ela cobriu-me de expectativas, aninhou-me
7.5.09
6.5.09
5.5.09
Sociedade organizada
Para cada órgão que se cria, outros dois são criados para investigá-lo
Nesta aberração estatal, os órgãos vitais não funcionam
E sobram apêndices
Nesta aberração estatal, os órgãos vitais não funcionam
E sobram apêndices
4.5.09
Gerando empregos
- Sr. Garcia, pelos meus cálculos, o projeto vai consumir 70 milhões de reais e 250 vidas.
- Albert, não exagere! Eu sei que você pode melhorar esses números...
- Se espremermos bem, senhor, creio que podemos reduzir para 50 milhões e 500 vidas.
- Albert, não exagere! Eu sei que você pode melhorar esses números...
- Se espremermos bem, senhor, creio que podemos reduzir para 50 milhões e 500 vidas.
3.5.09
Teoria da involução
Sempre acreditou-se que o homem tinha vários elementos que o diferenciavam dos outros animais
Uma a uma, as teorias de superioridade foram caindo. De todas, restou apenas uma, com uma pequena correção, afinal, não é o polegar opositor que nos diferencia, mas sim o indicador delator, que acusa, julga e condena
Uma a uma, as teorias de superioridade foram caindo. De todas, restou apenas uma, com uma pequena correção, afinal, não é o polegar opositor que nos diferencia, mas sim o indicador delator, que acusa, julga e condena
2.5.09
Arte que cabe no marketing
Após uma rápida passada pela ala reservada à década de 80 e uma olhada na ala dos anos 90, o guia continuou o passeio:
- Então, neste período, iniciou-se o grande movimento artístico e cultural, patrocinado pelas grandes empresas, que mais tarde ficou conhecido como "Editalismo".
- Então, neste período, iniciou-se o grande movimento artístico e cultural, patrocinado pelas grandes empresas, que mais tarde ficou conhecido como "Editalismo".
1.5.09
O ainda idiota
Durante a 5ª Cúpula das Américas, Hugo Chávez, entregou em mãos, a Barack Obama, o livro “Veias Abertas da América Latina”, do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano. O economista Maílson da Nóbrega tratou de tentar rebater a “ofensa” cometida pelo venezuelano...
Leia o artigo completo na seção "Internacional" da edição de maio do Algo a Dizer.
Leia o artigo completo na seção "Internacional" da edição de maio do Algo a Dizer.
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