Quando o mundo escondeu o pote de biscoitos em cima do armário, após algum tempo, com muito esforço, peguei um banquinho e arrastei até a frente dele. Infelizmente, ainda assim não o alcancei.
Depois de mais algum tempo, e muito empenho, voltei. Peguei uma cadeira e arrastei até o lado do banquinho, mas ainda não dava pé.
Por fim, depois de tanto tempo, esforcei-me ainda mais para arrastar a mesa. No entanto, quando parei novamente ao lado do armário, já estava grande o suficiente para não precisar mais de apoio.
31.3.10
30.3.10
29.3.10
Ervas daninhas
Nestas terras férteis, em se plantando tudo dá
No entanto, sem qualquer esforço, em cantos úmidos e abandonados, brota apenas a mediocridade
No entanto, sem qualquer esforço, em cantos úmidos e abandonados, brota apenas a mediocridade
28.3.10
Mundialmente desconhecido
Desde 2008, este espaço conta com uma ferramenta do google que fornece dados sobre local de origem das visitas, tempo que a pessoa passou no site e outras informações não relevantes - nem comprometedoras
Uma vez que eu raramente confiro as informações, hoje deparei-me com algumas surpresas e resolvi partilhá-las com vocês, frequentadores, transeuntes ou perdidos no labirinto virtual
Origem das visitas
No total, o site recebeu mais de 10.000 visitas, originadas em mais de 500 cidades de mais de 50 países
O Brasil é o país com maior público - cerca de 90% das visitas, seguido por EUA, Portugal, Bélgica, Reino Unido, Espanha, Alemanha, Canadá, Japão e Argentina
O Rio de Janeiro liderou o ranking nacional, seguido por Curitiba, Londrina, São Paulo, Fortaleza, Apucarana, Brasília, Recife, Belo Horizonte e Salvador
Entre as cidades do exterior, Lisboa lidera, seguida por Porto, Brooklyn, Bruxelas, Mountain View, Nova Iorque, Londres, Astoria, Amadora e Bakersfield
Cabe também lembrar de algumas das surpresas, que incluem visitas da Finlândia, Lituânia, Andorra, Kwait, Qatar, Malásia, África do Sul, Nova Zelândia, Costa Rica e Haiti
Uma vez que eu raramente confiro as informações, hoje deparei-me com algumas surpresas e resolvi partilhá-las com vocês, frequentadores, transeuntes ou perdidos no labirinto virtual
Origem das visitas
No total, o site recebeu mais de 10.000 visitas, originadas em mais de 500 cidades de mais de 50 países
Clique na imagem para conferir o mapa em alta resolução
O Brasil é o país com maior público - cerca de 90% das visitas, seguido por EUA, Portugal, Bélgica, Reino Unido, Espanha, Alemanha, Canadá, Japão e Argentina
O Rio de Janeiro liderou o ranking nacional, seguido por Curitiba, Londrina, São Paulo, Fortaleza, Apucarana, Brasília, Recife, Belo Horizonte e Salvador
Entre as cidades do exterior, Lisboa lidera, seguida por Porto, Brooklyn, Bruxelas, Mountain View, Nova Iorque, Londres, Astoria, Amadora e Bakersfield
Cabe também lembrar de algumas das surpresas, que incluem visitas da Finlândia, Lituânia, Andorra, Kwait, Qatar, Malásia, África do Sul, Nova Zelândia, Costa Rica e Haiti
26.3.10
Inconveniente
No sossego do sul de Minas, o povo todo é boa gente, muito do dedicado e ainda mais do hospitaleiro. Quando passa um conhecido, desconhecido ou viajante, já vão logo chamando para um café, guiando para dentro de casa e puxando conversa.
No entanto, de tempos em tempos, esse povo hospitaleiro sofre a sina de quem convida a entrar sem olhar a quem. O povo todo vê o rio, que corre bem ali do lado, e ninguém se cansa de sempre convidar para entrar e o rio sempre fazer desfeita. Mas, de vez em quando, o rio que geralmente corre tranquilo, fica espivetado e resolve aceitar, de uma vez só, todos os convites, vai entrando de casa em casa e chega mais ou menos até a praça, fazendo a maior sujeirada.
A gente de lá, que não é de se irritar por coisa assim à toa, depois que a água se vai por vontade própria, começa a juntar os trapos, as tralhas e os cacos. Durante a limpeza, comentam entre si, bem cochichado, que é para o rio não ouvir, que a sorte é que enchente é igual parente de longe, que só vem mesmo uma vezinha por ano e olhe lá.
No entanto, de tempos em tempos, esse povo hospitaleiro sofre a sina de quem convida a entrar sem olhar a quem. O povo todo vê o rio, que corre bem ali do lado, e ninguém se cansa de sempre convidar para entrar e o rio sempre fazer desfeita. Mas, de vez em quando, o rio que geralmente corre tranquilo, fica espivetado e resolve aceitar, de uma vez só, todos os convites, vai entrando de casa em casa e chega mais ou menos até a praça, fazendo a maior sujeirada.
A gente de lá, que não é de se irritar por coisa assim à toa, depois que a água se vai por vontade própria, começa a juntar os trapos, as tralhas e os cacos. Durante a limpeza, comentam entre si, bem cochichado, que é para o rio não ouvir, que a sorte é que enchente é igual parente de longe, que só vem mesmo uma vezinha por ano e olhe lá.
25.3.10
Novelo
Puxei o fio da meada
assim, como quem não quer nada
Não me custa tentar desatar
ver se rende conversa fiada
2010 - 19º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Porto Alegre - RS;
Publicada na coletânea do concurso
assim, como quem não quer nada
Não me custa tentar desatar
ver se rende conversa fiada
2010 - 19º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Porto Alegre - RS;
Publicada na coletânea do concurso
24.3.10
Evitando desperdício
Não despejo as mágoas em lágrimas, lamentando-me pelos cantos. De nada adianta chorar sozinha. Guardo-as todas, ao lado das boas lembranças, em um pote de vingança
23.3.10
Separação de poderes
Deus está no executivo
mas é cargo de fachada
pois o legislativo
está nas mãos do papa
mas é cargo de fachada
pois o legislativo
está nas mãos do papa
22.3.10
Vou-me embora pra outra casa
Vou-me embora dessa casa
onde o rei nem põe os pés
lá terei minha rainha
na casa que escolherei
Vou-me embora dessa casa
onde o bispo coleta dízimo
se Deus é assim avarento
lá servirei ao diabo
Vou-me embora dessa casa
onde o cavalo caga na porta
aqui eu sou só peão
lá serei o que quiser
livremente criado com elementos da poesia de Manuel Bandeira
onde o rei nem põe os pés
lá terei minha rainha
na casa que escolherei
Vou-me embora dessa casa
onde o bispo coleta dízimo
se Deus é assim avarento
lá servirei ao diabo
Vou-me embora dessa casa
onde o cavalo caga na porta
aqui eu sou só peão
lá serei o que quiser
livremente criado com elementos da poesia de Manuel Bandeira
21.3.10
Lançamento - Rio de Janeiro
Neste sábado, dia 27 de março, ocorrerá o lançamento do
Vem cá que eu te conto no Rio de Janeiro
Mais informações, acesse:
http://vemcaqueeuteconto.wordpress.com
http://vemcaqueeuteconto.wordpress.com
20.3.10
Pombos pomposos e o petróleo que não é nosso
Entre funcionários públicos liberados às quatro da tarde, milhares de policiais, algumas celebridades, diversas figuras públicas e, por fim, trabalhadores presos pela chuva e pelo congestionamento causado pelo fechamento de suas principais avenidas, o Rio de Janeiro encontrou-se em meio a uma discussão generalizada sobre a mudança nas regras de distribuição dos royalties advindos da exploração do petróleo. No entanto, a discussão ainda permanece extremamente rasa, incoerente e imatura. Por enquanto, trata-se da questão apenas como uma tentativa de roubar o estado e seus municípios, mas ninguém ousa abordar temas mais delicados...
Confira o artigo completo na edição de março do Algo a Dizer - Jornal de Política e Cultura
Confira o artigo completo na edição de março do Algo a Dizer - Jornal de Política e Cultura
Pombos pomposos e o petróleo que não é nosso
Entre funcionários públicos liberados às quatro da tarde, milhares de policiais, algumas celebridades, diversas figuras públicas e, por fim, trabalhadores presos pela chuva e pelo congestionamento causado pelo fechamento de suas principais avenidas, o Rio de Janeiro encontrou-se em meio a uma discussão generalizada sobre a mudança nas regras de distribuição dos royalties advindos da exploração do petróleo. No entanto, a discussão ainda permanece extremamente rasa, incoerente e imatura. Por enquanto, trata-se da questão apenas como uma tentativa de roubar o estado e seus municípios, mas ninguém ousa abordar temas mais delicados.
É inegável que os estados e municípios que arcam com os impactos ambientais da exploração devem ter uma contrapartida, mas também é necessário avaliar que a legislação que define a partilha dos recursos (Leis nº 7.990 de 1989 e nº 9.478 de 1997) está defasada em relação à descoberta, em 2006, de uma enorme quantidade de petróleo na camada do pré-sal. No entanto, além de ser necessário debater os benefícios para a União, que tem o direito sobre o petróleo, e a compensação aos Estados e Municípios afetados pela produção e pelo escoamento, é necessário colocar em pauta a transparência na aplicação dos recursos advindos dos royalties, tema que foi discretamente abordado - e apenas pelo Fernando Gabeira - durante o show protesto desta quarta-feira no centro do Rio de Janeiro. É preciso discutir sobre o destino dos recursos, mas é ainda mais importante tornar transparente a sua aplicação, onde quer que seja. Durante a semana, governadores e prefeitos deram entrevistas falando sobre o fechamento de hospitais e escolas, incapacidade de pagar aposentadorias, inviabilização da Copa do Mundo, das Olimpíadas e de tudo o mais caso a emenda Ibsen, como está sendo chamada, fosse aprovada. Estas declarações podem ser consideradas um grande marco: deve ter sido a primeira vez na história que citam publicamente o destino dos recursos advindos dos royalties do petróleo.
Outro ponto a ser colocado em debate, além dos já expostos, é a oportunidade de, com os recursos do petróleo - se bem aplicados, com transparência - promover o desenvolvimento nacional de forma mais justa, homogênea e consistente. Se os recursos da camada do pré-sal seguirem a regra vigente de distribuição dos royalties, o Rio de Janeiro tende a tornar-se um estado cada vez mais rico, mas não tende, necessariamente, a resolver seus problemas sócio-econômicos. Com a aplicação destes recursos, a região sudeste tende a afastar-se ainda mais, em relação a avanço econômico, de outras regiões do país, o que, invariavelmente, acarretaria em um aumento no já saturado fluxo migratório para a capital e região metropolitana. Sendo assim, o que já está inchado, prestes a explodir, tende a expandir-se aos limites do aceitável e, como já aconteceu e acontece, o crescimento desordenado afundará ainda mais em problemas a cidade já conhecida por seus contrastes sócio-econômicos.
Também em relação à aplicação dos recursos, em nenhum momento foi abordada a questão de que o petróleo é um recurso finito - além de ser um grande poluente - e que, enquanto o país colhe os frutos de sua exploração, deve preocupar-se tanto em evitar os impactos da exploração quanto em investir na pesquisa de energias limpas e renováveis, visando, desse modo, o desenvolvimento sustentável de uma nação que venha a se tornar independente do petróleo muito antes deste se esgotar.
Por fim, mas não menos importante, cabe lembrar a todos os envolvidos no debate que, hoje em dia, o petróleo está longe de ser nosso. Enquanto os campos de exploração vão sendo leiloados, a gasolina e o transporte público ficam cada vez mais caros. A fatia que cabe a nós, brasileiros, varia entre 5 a 10% do que é extraído dos poços de petróleo e gás natural. Dessa pequena parcela, quando a extração é feita nas plataformas continentais, os Estados e Municípios - apenas os afetados direta ou indiretamente - recebem aproximadamente 22,5%. Na ponta do lápis, a cada R$100,00 de óleo bruto extraído do pré-sal, o Estado e o Município afetado recebem, em conjunto, entre R$2,25 (não dá nem para pegar um ônibus) e R$4,50.
Sendo assim, para finalizar, ao invés de aproveitarmos a situação para colocar em pauta temas como a transparência da administração pública, o desenvolvimento equilibrado e sustentável da nação e os direitos da mesma sobre o petróleo explorado em seus territórios, infelizmente nos rendemos ao abjeto espetáculo de alguns pombos pomposos, que disputam migalhas em praça pública.
19.3.10
18.3.10
Desfeita
Sem pressa nem má vontade, distribuo amostras grátis da mais fina gentileza. Mas ainda tem gente avarenta, desgraçada e lazarenta, que não retribui e desdenha, só porque me faltam, de acidente ou de desleixo, uns 3 ou 4 dos dentes da frente. Bem diria minha avó, que tombou da maleita, Deus a tenha: "sorriso dado não se olha os dentes".
ma.lei.ta: 1. o mesmo que malária
ma.lei.ta: 1. o mesmo que malária
17.3.10
Entre ternos e bravatas
Entre paletós aquecendo poltronas e cafezinhos para colocar o papo em dia, o aviso na parede deixa bem clara a ameaça: quem protestar pelo descaso será preso por desacato.
bra.va.ta: 1. ato ou dito que reflete presunção a respeito de atributos pessoais, poderes etc; 2. ato ou dito insolente que envolve ameaça, intimidação; 3. prova de força ou de coragem desnecessária e eventualmente danosa.
bra.va.ta: 1. ato ou dito que reflete presunção a respeito de atributos pessoais, poderes etc; 2. ato ou dito insolente que envolve ameaça, intimidação; 3. prova de força ou de coragem desnecessária e eventualmente danosa.
16.3.10
Paralisia
Pela inércia de muitos anos
enfraquecidos e atrofiados
poucos repararam
quando, por fim, cessaram
os movimentos sociais
enfraquecidos e atrofiados
poucos repararam
quando, por fim, cessaram
os movimentos sociais
15.3.10
Valores
Já haviam reunido toda a papelada e discutido com os advogados sobre as despesas do divórcio
No entanto, nos últimos momentos, por tudo que haviam construído juntos, decidiram voltar atrás
Tudo pela manutenção, intacta, do sagrado patrimônio
No entanto, nos últimos momentos, por tudo que haviam construído juntos, decidiram voltar atrás
Tudo pela manutenção, intacta, do sagrado patrimônio
12.3.10
Chagas
Guardo na memória
momentos marcantes
cicatrizes que exibo orgulhoso
Mas os traumas e tormentas
que eu quero deixar para trás
ainda sangram
momentos marcantes
cicatrizes que exibo orgulhoso
Mas os traumas e tormentas
que eu quero deixar para trás
ainda sangram
11.3.10
Legado
Não escapou da sina da família, que parecia ser coisa genética
Tornou-se também um trabalhador de mão cheia - de calos - e bolso vazio
Tornou-se também um trabalhador de mão cheia - de calos - e bolso vazio
10.3.10
Amparo
Na desforra, até ouso blasfemar
Mas no desespero, rezo fervorosamente
Quando estou para baixo, ter um santo ajuda
Mas no desespero, rezo fervorosamente
Quando estou para baixo, ter um santo ajuda
9.3.10
Cárcere privado
Sobre a calçada
fumegam os resquícios
de um colchão incendiado
Em volta,
dezenas de curiosos
observam as contorções
das chamas que ainda resistem.
Ao avistar de longe esta cena,
encho-me de esperança:
finalmente rebelaram-se
os prisioneiros da rotina.
2010 - II Prêmio de Poesias do Núcleo Artístico Cultural Professor Áureo Ramos - RJ
fumegam os resquícios
de um colchão incendiado
Em volta,
dezenas de curiosos
observam as contorções
das chamas que ainda resistem.
Ao avistar de longe esta cena,
encho-me de esperança:
finalmente rebelaram-se
os prisioneiros da rotina.
2010 - II Prêmio de Poesias do Núcleo Artístico Cultural Professor Áureo Ramos - RJ
8.3.10
Inglórias póstumas
Depois de muito tempo
tiveram o castigo merecido
Em plena praça pública
cobertos de cocô de pombo
tiveram o castigo merecido
Em plena praça pública
cobertos de cocô de pombo
5.3.10
Imaculada
A noite foi perfeita. Ele escolheu um prato delicioso, um vinho ótimo e, para completar, escolheu palavras encantadoras. O ambiente era muito agradável e a companhia melhor ainda, não demorou muito para que eu me deixasse levar. Entre beijos e abraços, já adentrando a madrugada, ele disse que não queria apressar as coisas, que pretendia me respeitar, e levou-me para casa. Não se insinuou a subir comigo, não deu nenhuma indireta maliciosa. Eu fiquei sem palavras.
O insensível não sabe quanto custa fazer pé e mão, escova japonesa, perna toda e virilha cavada. Desgraçado, filho da puta! Só pode ser viado...
O insensível não sabe quanto custa fazer pé e mão, escova japonesa, perna toda e virilha cavada. Desgraçado, filho da puta! Só pode ser viado...
4.3.10
3.3.10
Combustível
Não sei em que ano estamos - ninguém mais sabe. Perdemos a conta após as grandes tempestades de areia. Ninguém esperava. Após os terremotos, não podíamos mais nos alojar nas edificações, por medo dos tremores e, então, veio a areia, cobrindo os rastros dos poucos que resistiram. Mas, eu não posso perder tempo, não sabemos quando nem como o planeta vai tentar livrar-se de nós novamente e, portanto, eu e os outros precisamos estar sempre preparados para o pior.
Há muitos anos organizamos nossa comunidade em pequenos grupos, liderados pelo membro mais velho, cada um com um objetivo específico para a manutenção do todo. Acreditávamos que deviam estar fazendo isso por locais de todo o mundo até que fosse possível nos reerguermos como civilização. Ao menos tínhamos essa esperança, mas há muito tempo não tínhamos contato com ninguém de nenhum outro país, estado, cidade ou comunidade.
No meu grupo, éramos quatro, responsáveis pela busca e exploração de combustível. Com trajes específicos, para nos proteger das tempestades de areia e da radiação solar, saíamos da base, rumando em direções distintas a cada dia, sempre evitando as nuvens de poeira, e vasculhávamos o deserto com um detector de gases combustíveis. A cada dois ou três anos encontrávamos uma grande jazida e, em cada uma delas, inúmeros filões, pequenas jazidas, sempre protegidas por uma camada de concreto.
Demos sorte na última missão, cerca de seis horas após a partida da base, na direção sudeste, detectamos um sinal. Após iniciar as escavações e estabelecer acampamento, aguardamos melhores condições de luz para continuar com os trabalhos. No dia seguinte, apesar de cobertos por uma nuvem de poeira, encontramos a primeira placa de concreto, indicando que estávamos no local certo. Pouco tempo depois, já havíamos delimitado uma área com cerca de vinte pequenas jazidas. Decidimos iniciar a extração enquanto um de nós continuava o trabalho de limpeza do terreno para delimitação da área a ser explorada. Extraíamos primeiro o gás, usado principalmente no sistema de calefação - crucial para resistirmos às noites frias. Após retirar o gás, obtínhamos um líquido negro e viscoso, utilizado tanto para movimentar nossas máquinas quanto para o aquecimento da água, funcionamento de veículos de transporte e para a produção de energia elétrica - ainda que os veículos e a energia elétrica fossem utilizados apenas em casos emergenciais.
Não tivemos qualquer problema para perfurar e extrair o combustível dos dois primeiros filões, mas, no terceiro, a broca começou a sacudir e tivemos que interromper os trabalhos. Desliguei a escavadeira, retirei-a para o lado e um dos rapazes abaixou-se, em meio à poeira, para averiguar o que nos estava impedindo. Neste intervalo, o responsável pela limpeza do terreno avisou-me pelo rádio sobre um achado e eu, aproveitando a breve pausa, resolvi procurá-lo. Ao chegar ao local, encontrei-o entre uma estátua de bronze, de um anjo, e quase uma dezena de cruzes de metal, todos cobertos por uma fina nuvem de poeira.
Devido à presença das cruzes, deduzimos que o propósito do local era religioso, mas ainda não sabíamos do que se tratava. Não até o momento em que fui chamado pelo rádio, às pressas, para o local onde havíamos interrompido a extração. No chão, o rapaz ainda retirava um pouco de areia de cima de uma placa de metal. Ao aproximar-me, pude ler a seguinte inscrição: "Aqui jaz, Alberto Galeano, esposo apaixonado, dedicado pai de família e ilustre membro do clube de campo. Que descanse em paz!".
De início, ficamos chocados, estáticos. Não sabíamos que aquilo que nos movia adiante, o que queimávamos para nos aquecer, eram os restos mortais de nossos antepassados. Diante do desespero, antevendo uma crise, assumi meu papel de liderança e disse aos que me cercavam - e a mim mesmo, em voz alta, o que haveria de se tornar meu lema de vida - ou do resto daquilo que eu chamava de vida:
- Eu não posso perder tempo com o tempo que já passou, com os vestígios do que fomos.
Há muitos anos organizamos nossa comunidade em pequenos grupos, liderados pelo membro mais velho, cada um com um objetivo específico para a manutenção do todo. Acreditávamos que deviam estar fazendo isso por locais de todo o mundo até que fosse possível nos reerguermos como civilização. Ao menos tínhamos essa esperança, mas há muito tempo não tínhamos contato com ninguém de nenhum outro país, estado, cidade ou comunidade.
No meu grupo, éramos quatro, responsáveis pela busca e exploração de combustível. Com trajes específicos, para nos proteger das tempestades de areia e da radiação solar, saíamos da base, rumando em direções distintas a cada dia, sempre evitando as nuvens de poeira, e vasculhávamos o deserto com um detector de gases combustíveis. A cada dois ou três anos encontrávamos uma grande jazida e, em cada uma delas, inúmeros filões, pequenas jazidas, sempre protegidas por uma camada de concreto.
Demos sorte na última missão, cerca de seis horas após a partida da base, na direção sudeste, detectamos um sinal. Após iniciar as escavações e estabelecer acampamento, aguardamos melhores condições de luz para continuar com os trabalhos. No dia seguinte, apesar de cobertos por uma nuvem de poeira, encontramos a primeira placa de concreto, indicando que estávamos no local certo. Pouco tempo depois, já havíamos delimitado uma área com cerca de vinte pequenas jazidas. Decidimos iniciar a extração enquanto um de nós continuava o trabalho de limpeza do terreno para delimitação da área a ser explorada. Extraíamos primeiro o gás, usado principalmente no sistema de calefação - crucial para resistirmos às noites frias. Após retirar o gás, obtínhamos um líquido negro e viscoso, utilizado tanto para movimentar nossas máquinas quanto para o aquecimento da água, funcionamento de veículos de transporte e para a produção de energia elétrica - ainda que os veículos e a energia elétrica fossem utilizados apenas em casos emergenciais.
Não tivemos qualquer problema para perfurar e extrair o combustível dos dois primeiros filões, mas, no terceiro, a broca começou a sacudir e tivemos que interromper os trabalhos. Desliguei a escavadeira, retirei-a para o lado e um dos rapazes abaixou-se, em meio à poeira, para averiguar o que nos estava impedindo. Neste intervalo, o responsável pela limpeza do terreno avisou-me pelo rádio sobre um achado e eu, aproveitando a breve pausa, resolvi procurá-lo. Ao chegar ao local, encontrei-o entre uma estátua de bronze, de um anjo, e quase uma dezena de cruzes de metal, todos cobertos por uma fina nuvem de poeira.
Devido à presença das cruzes, deduzimos que o propósito do local era religioso, mas ainda não sabíamos do que se tratava. Não até o momento em que fui chamado pelo rádio, às pressas, para o local onde havíamos interrompido a extração. No chão, o rapaz ainda retirava um pouco de areia de cima de uma placa de metal. Ao aproximar-me, pude ler a seguinte inscrição: "Aqui jaz, Alberto Galeano, esposo apaixonado, dedicado pai de família e ilustre membro do clube de campo. Que descanse em paz!".
De início, ficamos chocados, estáticos. Não sabíamos que aquilo que nos movia adiante, o que queimávamos para nos aquecer, eram os restos mortais de nossos antepassados. Diante do desespero, antevendo uma crise, assumi meu papel de liderança e disse aos que me cercavam - e a mim mesmo, em voz alta, o que haveria de se tornar meu lema de vida - ou do resto daquilo que eu chamava de vida:
- Eu não posso perder tempo com o tempo que já passou, com os vestígios do que fomos.
2.3.10
1.3.10
Identidade
Ao entrar na sala do apartamento, não notou qualquer diferença. Os mesmos móveis acomodados em volta da televisão, os mesmos pais trabalhadores e ausentes - também acomodados em volta da televisão, com as mesmas dores na coluna e na cabeça.
Na cozinha, os mesmos copos de requeijão, os mesmos panos de prato velhos em cima da pia - enquanto os novos e bordados mofavam na gaveta - e os mesmos potinhos na geladeira, guardando os restos daquilo que ninguém vai comer.
Quando entrou no quarto, ao abrir a janela, percebeu a primeira e única diferença: dali se tinha vista para a praça dos fundos - e não para a rua da frente. Cansado, acomodou-se e dormiu na mesma velha cama de madeira, coberto pela mesma manta empoeirada e quadriculada, ao lado da mesma escrivaninha, que equilibrava-se não se sabe como, suportando o peso daquele mesmo computador amarelado e da televisão de quatorze polegadas.
Na semana seguinte, ao encontrar-se no elevador com o antigo dono do quarto, comentou:
- Gostou da vista da rua?
- Mais movimentada... É bom, para variar.
- Quando cansar, trocamos de volta.
- Fechado!
Na cozinha, os mesmos copos de requeijão, os mesmos panos de prato velhos em cima da pia - enquanto os novos e bordados mofavam na gaveta - e os mesmos potinhos na geladeira, guardando os restos daquilo que ninguém vai comer.
Quando entrou no quarto, ao abrir a janela, percebeu a primeira e única diferença: dali se tinha vista para a praça dos fundos - e não para a rua da frente. Cansado, acomodou-se e dormiu na mesma velha cama de madeira, coberto pela mesma manta empoeirada e quadriculada, ao lado da mesma escrivaninha, que equilibrava-se não se sabe como, suportando o peso daquele mesmo computador amarelado e da televisão de quatorze polegadas.
Na semana seguinte, ao encontrar-se no elevador com o antigo dono do quarto, comentou:
- Gostou da vista da rua?
- Mais movimentada... É bom, para variar.
- Quando cansar, trocamos de volta.
- Fechado!
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